Psicolinguística

ABENÇOADA CARTA DE ALFORRIA!

Este país está repleto de pseudo-leitores

ABENÇOADA CARTA DE ALFORRIA!

 

Um certo livro numa velha papelaria,

por um certo indivíduo, foi comprado,

seguidamente, um anónimo,

sentou-se num banco de jardim

e, começou a folheá-lo,

lendo em primeiro lugar, as letras gordas

de cada capítulo.

 

O livro dava a entender que falava 

de opressão e escravatura de antigamente, 

de hoje e de amanhã, de um modo crítico,

como que avisando o eventual leitor

de que deveria saber que a liberdade,

não é nem nunca será um dado adquirido.

 

Passado algum tempo,

esse fulano regressou a sua casa onde abandonou

o livro, como coisa morta sobre uma velha mesa.

 

O tema do livro era, a opressão, a repressão,

coisas não apenas dos tempos desgraçados

de antigamente e de alguns regimes políticos miseráveis.

 

A repressão, veio ao mundo para permanecer e eternizar-se,

tal como acontece com algumas ervas daninhas

que nada nem ninguém as consegue destruir.

 

Aborrecido e triste por ter sido

prematuramente abandonado, o livro,

permanecia consumido numa insuportável solidão.

 

Um belo dia, o livro começou a agitar,

sozinho, as suas folhas sobre a tal mesa.

Parecia sentir-se desconfortável, por ter sido largado,

como, se, aquilo que relatava não tivesse o menor interesse 

para o seu comprador.

 

De repente, sentiu-se dentro da casa,

um ranger de folhas de papel,

e, eis que o livro parecia ter ganho vida própria.

 

Após alguma auto-reflexão, o livro

acalmou-se e, fingiu dormitar, sossegadamente,

esperando a abertura de uma qualquer janela da casa

a fim de se libertar daquele marasmo físico e intelectual

onde se encontrava.

 

A sua ideia era muito clara,

decidira fugir dali, esvoaçar e ganhar a liberdade

que, nele, o seu autor preconizava.

 

Iria fugir, pirar-se dali o mais depressa possível,

antes que acabasse cheio de poeira e de bolor,

ou então deixado para ser comido pela traça dos livros, que se alimenta

de celulose presente no papel, fibras vegetais e carboidratos,

apagado, e reduzido a um velho trapo sem qualquer valor.

 

Não se resignava a ser um mero objeto inerte

sobre uma velha mesa colocado.

 

A fim de arejar a casa, o seu comprador e dono,

dirige-se a uma das janelas da casa e,

eis que abre a janela da divisão na qual o livro se encontrava.

 

Então, o livro, em silêncio,

inspira e respira, ganha força,

levanta-se e, abrindo as suas asas, 

sai disparado como um foguete, através da janela

em direção à luz do sol que, nesse instante brilhava 

e o atraía como um íman.

 

As suas belas folhas soltaram-se umas das outras,

levantou voo, e, ei-las, completamente livres

a esvoaçarem livremente no horizonte promissor.

 

Há livros que nunca poderão existir

apenas para decorarem as prateleiras ou estantes

das bibliotecas mortas das casas, de alguns endinheirados

que adquirem grandes quantidades de livros, somente

para que as suas eventuais visitas, possam pensar

que ali mora um grande leitor ou intelectual.

 

Os livros são pedaços de vida

que, têm de ser livres e devem poder dar-se a todos,

para que as mentes de quem se digna lê-los efetivamente,

e, por vezes, até mais do que uma vez

para que essas mesmas mentes possam também elas,

soltar-se, voar, esvoaçar seguindo o caminho da luz.

 

Os pseudo-intelectuais gostam de exibir os livros

que nunca leram, nem tencionam abri-los sequer.

 

Os pedantes são de igual modo,

grandes leitores que nunca se deram ao trabalho 

de ler seriamente qualquer livro que seja.

 

Talvez por isso, é que hoje, está na moda,

não ler nada, porque toda a gente diz saber tudo,

e muito mais do que tudo, exibindo falsos saberes

que apanharam de forma distorcida, de forma deturpada,

nem se apercebendo, de que, no fundo são uns ignorantes.

 

Escrever é viver

e, ler é efetivamente, adquirir ideias

e opiniões próprias sobre aquilo que se lê

e também alargar os seus horizontes sobre a vida e o mundo.

 

Agora, aquele livro, que antes fora aprisionado,

é livre, as suas folhas adquiriram a sua carta de alforria

com toda a propriedade e, as suas páginas esvoaçam no ar,

para quem as queira apanhar com a finalidade real

de as ler, entender, compreender e, finalmente,

com elas se deliciar!

 

 

Prof. Eduardo Teixeira

 

 

N.B. 

A iliteracia em Portugal é uma doença

que empobrece, este país, cada vez mais.

 

 

 

 

07

Dez24

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