Psicolinguística

TACITURNIDADES

 

TACITURNIDADES

 

Caminho absorto

pelas ruas da minha cidade.

 

Cidade rural, quase despida de gente.

 

Aos domingos, o único movimento,

é o esvoaçar de alguma passarada, 

essencialmente, pombas, pardais

e, ao cair da noite, enormes bandos de estorninhos

que regressam à cidade, a fim de pernoitarem 

nos galhos das árvores,

sobretudo, na praça central Cavaleiro Ferreira.

 

Estes sim, são os verdadeiros senhores

e donos de todo o espaço citadino.

 

Esporadicamente,

eis que na sua avenida principal

- Sá Carneiro -

se avista um ou outro jovem

encimado na sua trotineta elétrica,

percorrendo

as artérias principais.

 

Percorre silenciosamente,

os passeios, vazios,

também eles silenciados e melancólicos. 

 

Tudo é uma triste calmaria!

 

Tudo parece moribundo,

- taciturno -,

pois a seiva viva que, porventura,

noutros tempos, corria pela cidade,

já faz parte do passado.

 

O sangue da cidade são os fedelhos,

e, esses, tronaram-se cada vez mais escassos.

 

Sem gente não há vida

a não ser a animal - não humana - e a vegetal.

 

Os poucos habitantes,

desta quase fantasmagórica cidade,

também eles, parecem vegetar.

 

O mutismo é mais do que evidente.

 

Aqui não fazem falta os semáforos,

nem polícia sinaleiro,

pois a azáfama rodoviária é de tal ordem,

que, cada eventual condutor,

tem todo o espaço da cidade à sua disposição.

 

Sem indústrias a sério,

uma cidade provinciana será sempre um tédio.

 

Esse tédio,

vê-se na forma de caminhar das pessoas,

mas também na forma de falar,

valorizando sempre em demasia os regionalismos,

próprios da terra.

 

Esse tédio,

é evidente e notório,

sobretudo,

na falta de luminosidade dos olhares.

 

São maioritariamente,

olhares opacos, entristecidos, sombrios,

como os de um cão agonizando,

deixado na berma de uma estrada ao abandono.

 

Contentam-se

alguns habitantes locais com este perecer,

- para mim insuportável -,

dizendo que, por estas bandas, ainda se respira um ar puro!

 

Que importa que o ar tenha ainda alguma qualidade,

se, cada mais, se ouvem menos, 

os gritos alegres e estridentes da canalhada 

a correr, a saltar e a brincar!

 

Que importa a qualidade do ar, 

se nesta terra,

só nos deparamos com cabelos grisalhos,

caras enrugadas, bocas desdentadas, olhos lacrimejando,

porque abandonados e votados ao ostracismo!

 

Que importa a qualidade do ar e a pacatez da terra,

se o que vemos espelhado no rosto dos raros jovens,

que ainda por cá vão sobrevivendo

- à custa dos velhos pais -,

é a frustração e o desânimo!

 

Aqui,

a única e "verdadeira indústria" é, apesar de tudo,

a Câmara Municipal que lá vai dando trabalho,

essencialmente, àqueles que se permitem,

em momentos de eleições,

agitar as bandeirinhas partidárias pelas ruas.

 

Esta urbe,

de facto, de urbe, pouco ou nada tem.

 

É uma terra de esquecimento,

onde, por desgraça,

cada vez mais existe uma população envelhecida,

e, por conseguinte, cada vez mais esquecida até de si própria,

ou não fosse a velhice terreno fértil para o Alzheimer!

 

 

 Prof. Eduardo Teixeira

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